a voz grossa de Simão.
Domingo pachorrento. Atrás de mim um espirro e uma voz que dizia "Mãe... dói-me a cabeça". Confesso que ao primeiro impacto a voz soou-me desconhecida, de um timbre grave tipicamente masculino, mas aquela mecha de cabelo loiro a cair sobre a testa não deixavam qualquer margem para dúvida. Era Simão a enrolar-se junto a mim na manta do sofá à procura do mimo de mãe.
Afaguei-lhe os cabelos loiros e perguntei-me onde tinham passado os 13 anos deste quase metro e setenta. À memória vieram-me as épicas histórias que ainda hoje arrancam gargalhadas nos jantares de amigos, como aquela em que, aos dois anos, enfiou um estrela de esponja pelo nariz e transformou a casa num autêntico filme cómico visto à velocidade de um Fast Forward.
Simão rapidamente cresceu e ficou um homem. Um menino em tamanho de adulto que procura o colo da mãe quando uma saudável constipação ataca. Um adulto com as inseguranças de menino que adormece aninhado em mim numa tarde de domingo quando, deitados no sofá, relembramos os antigos episódios da saga Star Wars ao mesmo tempo que o cheiro do bolo de iogurte, ainda no forno, inunda a casa.
Existem, de facto, enormes diferenças entre lar e casa. O lar, que só os ingleses tão bem sabem o que significa quando o chamam de "Home" e a ele se referem como "I'm going Home" - e não "I'm going House" - aquando do seu regresso a casa. Um lar pressupõe amor e a existência de uma família para cuidar e proteger. Uma casa está ao alcance de qualquer um de nós. Um lar, faz parte apenas do dicionário dos mais afortunados.
Afasto-lhe a franja loira dos olhos e usufruo destes breves momentos de paz que o choque de gerações das últimas semanas tem insistido em bombardear.
Suspiro.
Os filhos são a chave para a nossa imortalidade, o legado que nos sobrevive e não apenas um acumulado de deveres cumpridos apenas porque tem que ser.
Gostava de arranjar uma maneira fácil de o fazer compreender que afinal, o mundo cá fora não é bem como na capa do catálogo da agência de viagens. Que as praias paradisíacas têm pouca areia, muito vento e tubarões mesmo à beira-mar. Que há que ter medo. Porque é o medo que nos mantém vivos. Que há holofotes que nos cegam e pequenos brilhos que nos encantam. Que até serem cumpridas, as promessas não passam de meras palavras.
Se lhe pudesse dar um único conselho? ... Que somos o que guardamos no coração.