hoje. haja. fé.
Nós damos a volta, nós damos a volta a tudo.
Tocava o refrão na rádio enquanto, no final de um dia chuvoso, as luzes vermelhas dos automóveis se alinhavam à minha frente numa paisagem a perder de vista e desenhada em forma de perspectiva com um ponto de fuga. Fuga para onde?
Os parabrisas desenhavam curvas perfeitas, num ritmo monótono o suficiente para afastar a chuva que se acumulava no vidro e deixava antever o ainda longo tempo que resta e o caminho que falta até chegar a casa. O ponto de fuga.
Suspiro, ao mesmo tempo que me ajeito na cadeira na tentativa falhada de disfarçar o incómodo que sinto do inocente cinto - sempre gostei de brincar com as palavras - que cumpre a heróica missão de me agarrar à vida em caso de catástrofe.
"Nós damos a volta, nós damos a volta a tudo".
Em marcha lenta, dou comigo envolvida por pessoas presas por cintos, sempre de olhos postos em ecrãs, num verdadeiro ato de rebeldia após um dia pleno de bom-comportamento num mundo onde tudo está previamente perdoado e, consequentemente, tudo está hipocritamente permitido.
No painel da Auto-Estrada lia-se com dificuldade "Acidente a 2km, conduza com cuidado".
Eis a prova de que a vida não é uma corrida de velocidade mas uma longa maratona na qual precisamos de ir gerindo o esforço. Uma jornada plena de batalhas que não valem a pena e de muitas outras que não se podem perder. Uma viagem durante a qual raramente há magias; apenas, e quase sempre, muito esforço e dedicação em direção a um futuro quase sempre planeado, desejado, repleto de metas a alcançar e, ainda assim, sempre incerto, improvável e impossível de ser previsto. Do que não há memória, ninguém conhece o fim.
"Nós damos a volta, nós damos a volta a tudo".
Daremos? - dou comigo a pensar no meio desta voz, um verdadeiro canal do coração, e com os olhos embalados pelos movimentos perfeitos dos parabrisas. Sim, claro que sim, concluo para mim mesma. Até para nascer temos de dar a volta.
A chuva aumentou de intensidade esborratando as luzes vermelhas dos carros e transformando-as numa espécie de túnel infinito. Ao longe, as luzes azuis e amarelas das sirenes assinalam o local que nos relembra que a vida também é feita de impossíveis. Que vivemos com pressa, com pressa para nada, num mundo frio onde temos os amigos para nos sentirmos aquecidos.
Porque a vida é aquilo que acontece enquanto vivemos. O momento presente. O futuro que ontem nos preocupava.
A nossa maior liberdade é não ter de pensar no amanhã.
Hoje.
Haja.
Fé.