o lado esquerdo.


Foi um fim de semana de chuva. Cinzento. O outono a marcar definitivamente a sua presença depois de um verão que mostrou toda a sua raça.

Os dias cinzentos e chuvosos têm a particularidade de nos mostrar que, apesar de o mundo ser por vezes tão cinzento, ainda nos permite pintar a vida a cores mesmo que no dia seguinte possamos acordar com as cores todas esborratadas.

Vivemos num mundo dominado pelo preto ou pelo branco. O cinzento carrega sempre com ele o peso da tristeza, mesmo que a maior parte das vezes o branco seja demasiado claro e o preto seja demasiado escuro. Não ter opinião sobre determinado assunto é quase pecado, como se isso fosse sinónimo de não pensar, de não querer, de não viver.

Há muito que não nos juntávamos as três. Apesar de separadas por vidas profissionais que não nos dão tréguas, aproveitamos qualquer motivo para fazer a festa do reencontro de uma amizade de longa data cimentada pelo percurso sinusoidal da vida com os seus momentos altos e baixos que, quando somados, se traduzem numa linha estável e coesa. Os miúdos cresceram e, com o passar dos anos, já começamos a ralhar com eles do ângulo errado - debaixo para cima - mas, tal como nós, também existe entre eles uma sólida amizade.

Juntas, formamos um autêntico triângulo escaleno de personalidades. Somos a alma, o coração e a cabeça de um mesmo ser mas, apesar das diferenças, conhecemos e reconhecemos as fronteiras que nos separam. E quando assim é, tomamos consciência que estamos perante algo muito forte; algo que só a morte conseguirá separar, mas algo que nem a morte conseguirá terminar.

Leonor e Catarina vivem em permanência do meu lado esquerdo - o do coração.

O dia cinzento de ontem, assolado pelas primeiras chuvas e ventos de um outono com pressa em se afirmar, terminou assim mesmo: com as cores esborratadas pela alegria.

A vida é uma experiência única.