purple tears in heaven.
Lembro-me das tardes de infância passadas em casa dos meus amigos e dos seus quartos forrados a posters da revista Bravo, escrita em alemão, uma língua da qual não se percebia uma palavra. Todos eles vibravam com aqueles posters coloridos com os ídolos da música de então.
Confesso que sempre me senti um bocadinho outsider da minha própria geração quando olhava para as paredes do meu quarto forradas com um papel de parede azul claro e branco do qual sobressaía um poster a preto e branco de uma criança de costas, que se preparava para trilhar uma jornada através de um bosque com um ponto de fuga. Este poster, que guardo religiosamente até hoje, dava-me o secreto conforto de saber que não era só eu que olhava na direção oposta aos meus amigos de então.
Eu acreditava que, muito para além de uma adolescência embalada e hipnotizada por êxitos musicais e letras cantadas até à exaustão, existia um longo caminho a percorrer que nos ensinaria que a nossa força não vem da nossa capacidade física mas sim de uma vontade inabalável de nos superarmos a nos próprios. O mundo pula e avança nas mãos dos inconformistas natos. Nas mãos daqueles cuja insatisfação desiquilibra e faz rodar o mundo.
Se a morte deve levar-me, então que seja com toda a força, numa curva, porque não me vejo a acabar a minha vida numa cadeira de rodas.
E assim foi em Imola, num Williams, a mais de 300km/h que há 20 anos atrás desaparecia, numa curva, Ayrton Senna, o meu primeiro ídolo. O mais jovem piloto de F1 a ganhar um tricampeonato terminava a vida em directo para o mundo, mundo esse do qual eu era espectadora nesse preciso momento.
Foi a última corrida de F1 que assisti. Nem Prost, nem Schumacher, nem Piquet, tiveram nunca o dom de me levar de volta à grelha de partida dos domingos à hora de almoço na TV.
Mais do que o maior piloto de todos os tempos, o mundo acabara de perder o Ícaro do século XX que, ao querer voar para além dos limites que as suas asas artificiais lhe permitiam se perdeu, para sempre, num muro anónimo.
A grande lição de Senna mostra-nos que a ambição humana em ultrapassar os limites da sua condição sempre foi e sempre será toldada pela tecnologia.
Esta semana desapareceu alguém que um dia vaticinou que "Sometimes it snows in April".
Sometimes it snows in April
Sometimes I feel so bad, so bad
Sometimes I wish life was never ending,
and all good things, they say, never last.
Prince viveu em pleno afirmando várias vezes que "a vida é só uma festa, e as festas não foram feitas para durar".
Purple Rain é a canção da minha vida e o culminar de anos de trabalho árduo de um génio, misturado com uma grande dose de auto-confiança, que um dia chegou a confessar "gostava que as pessoas soubessem que houve alturas em que achei que não valia nada"
Purple Rain tem muitos significados nas entrelinhas, mas que deixa a sua marca na memória muito tempo após de sido ouvida. Entranha-se. Para sempre.
You say you want a leader
But you can't seem to make up your mind
I think you better close it
And let me guide you to the purple rain.
E são assim, pequenas coisas com grande significado como estas, que nos mostram que a felicidade não está em viver, mas em saber viver. Que não vive mais o que mais vive, mas o que melhor vive.
Purple Rain.
Tears in Heaven.
Purple Tears in Heaven.