voa.


Minha querida Simone,

Tens 13 anos há já quase 2 meses. E eu, lamentavelmente, falhei-te. Falhei-te por não te ter escrito ainda tudo aquilo que te quero sempre dizer. Mas o tempo, essa maçadora dimensão que mata e destina o homem, tem-me consumido mais do que seria desejável. Quando medido em anos, este mesmo tempo tem-me toldado a visão e invertido a razão naquilo que realmente importa ao coração. Tu.

É com frequência que me perguntas pelas palavras que já de antemão sabes que sempre te escrevo por esta altura. As palavras que sempre te direi e que, daqui a alguns anos, relerás para, finalmente, perceberes muitos dos teus atuais porquês.

Há pouco estivemos a ler juntas o livro de história que tanto detestas, mas que um dia te fará perceber que só conhecendo o nosso passado seremos capazes de entender o porquê de um determinado futuro; e entender um futuro não significa aceitá-lo. Significa ter a capacidade de reconhecer onde o podemos mudar para sermos sempre melhores.

E é precisamente neste livro de história que nos ensinam que um intransponível Adamastor se vergou aos heróis do mar. Que houve um cabo da Tormentas que na verdade se chamava de Boa Esperança. Que os Heróis do Mar tinham outrora também sido Heróis da Terra, quando de cá expulsaram aqueles a quem chamavam de infiéis só porque não viviam de acordo com os seus ideais.

E no fim desta lição de história conseguimos desvendar algo que, com os anos, a vida nos faz perceber.

Percebemos, com os anos, que os contratempos são vendavais que nos testam e que só com sabedoria e força de vontade os conseguimos contornar.

Percebemos, com os anos, que os outros raramente são como nós seríamos no lugar deles. E nunca o poderão ser porque, ao desconhecermos o que vai no coração alheio, não conseguimos sequer imaginar as histórias que têm para nos contar. E é nesta diversidade de histórias, tão diferentes e tão iguais à nossa, que reside o porquê de tudo. Num mundo cheio de lobos, fazem falta as ovelhas para os alimentar.

Percebemos, com os anos, que tememos o futuro simplesmente porque tememos tudo o que desconhecemos.

Não tenhas medo. Nunca. O medo faz-nos sós. Sempre que sentires o teu coração bater de uma forma tão intensa a ponto de não o conseguires ignorar, não tenhas medo e voa. Voa, porque, é precisamente no momento em que mais duvidas de ti, que percebes o quão longe consegues chegar.

❤ Mãe