A verdade é que há pessoas que deixam de ter lugar na nossa vida não porque tenhamos o coração esgotado. Apenas o preferimos ter vazio a tê-lo preenchido com coisas ou pessoas insignificantes.
Este é provavelmente o mês de Maio mais quente dos últimos anos. Daqueles em que já é dia até à noite e os fins de tarde alaranjados convidam aos petiscos regados a imperiais frescas e aos pés enterrados na areia já fria da praia.
E foi numa esplanada, de pés enterrados na areia, num entardecer de tarde alaranjado que deixava adivinhar um amanhã de verão, que Cátia, a minha amiga mais pragmática, lançava um suspiro de desespero e comparava a vida a um iogurte.
Emma.... a vida é como os iogurtes; quando acaba o prazo de validade é hora de dar lugar a outro. Não fosse eu gostar tanto de ti e já te tinha dado três abanões, mulher. Deixa de tentar encontrar uma explicação para tudo. A vida não é uma equação matemática. Às vezes a resposta é simplesmente "porque sim". Pára de procurar respostas onde elas não existem e iça a âncora que te leva para fora desse porto!
Por mais que me custe admitir, Cátia tem razão. As pessoas entram na nossa vida por um motivo e ficam por muitos. E também saem por um conjunto de nadas que, quando somados, fazem um todo demasiado forte. E quando saem muitas nem percebem, porque não querem perceber, o verdadeiro motivo pelo qual acabaram por ficar do lado de fora.
A verdade é que mais cedo ou mais tarde nos apercebemos que dentro de cada pessoa que conhecemos há sempre alguém que desconhecemos. E ao longo da vida há portas que têm de ser fechadas. Não por uma questão de orgulho, arrogância ou incapacidade mas simplesmente porque não nos conduziam a lado nenhum. Ou pior. Conduziam-nos a um beco sem saída.

A grande questão Emma, é que somos animais sociais. Só é pena não sermos selectivos nas relações que estabelecemos. Talvez o erro esteja aí.
Limpei com os dedos o condensado que se havia acumulado no copo da minha imperial. Aquilo que mais gosto na Cátia é a forma simples e directa com que me diz as coisas e me traz de volta à Terra.
Por mais que me custe aceitar, a verdade é que quando não há nada a perder também não há muito a ganhar. As relações da esfera social, sejam elas de amizade, de amor ou de circunstância, são muitas vezes cegas. Vivem de ilusões.
Não Cátia, enganas-te - disse-lhe eu entre uns tremoços e uns caracóis que acompanhavam as frescas imperiais daquela tarde mascarada de verão - Não se trata de uma questão de selectividade mas sim de ilusão. Quando o ditado diz que o amor é cego não se refere ao amor propriamente dito mas às relações humanas de uma forma geral. E o que é cego não são estas ditas relações. Somos nós, que vivemos de ilusões e construímos uma imagem das pessoas que nos torna resistentes à selecção e, consequentemente, praticamente cegos às atitudes que têm para connosco.
A verdade é que há pessoas que deixam de ter lugar na nossa vida não porque tenhamos o coração esgotado. Apenas o preferimos ter vazio a tê-lo preenchido com coisas ou pessoas insignificantes.
Cátia sorriu, com aquele sorriso de Sophia Loren que a caracteriza, e disse Estou com uma daquelas enormes preguiças sem nome, uma indecente preguiça sem nome. E as cores alaranjadas deste poente iluminam tudo com a luz da nostalgia.
Dei uma gargalhada. A poesia não é de todo a faceta que caracteriza Cátia, que com isto acabara de mostrar que entrara em modo de descompressão.
Rachamos um cheesecake para celebrar a nostalgia da luz poente - sugeri - Eu fico à cata das amoras, tu das framboesas.
Há amigos assim. Qualitativos. De topo de escala. Raros. Quando assim é não precisamos de muitos mais. Temos os essenciais.
Santificados sejam os seus nomes.
