Troveja e chove torrencialmente. Adoro dias de nevoeiro e de tempestade. Chamem-me louca, mas gosto de todas as manifestações de força da Mãe Natureza, capaz de mostrar aos homens que quem descansou ao 7º dia não foram eles mas sim Aquele que criou a noite e o dia, o céu e a terra, o visível e o invisível.

Nos dias cinzentos estamos mais atentos aos detalhes; tal como nas fotografias a preto branco, nas quais a ausência de toda uma palete de cores evita distrações com pormenores inúteis e por vezes até ridículos, permitindo-nos que nos concentremos naquilo que é realmente essencial: A mensagem. O mundo que nos rodeia. Sem ruídos, sem distrações, sem dispersões. Mas sempre repleto de verdade e intensidade.

Conta a lenda que, ao fim de quarenta dias de chuva intensa, as sete cores do arco-íris pintaram o céu e iluminaram o chão ainda alagado pelas águas do dilúvio. A cor, a forma que Deus arranjou para transmitir de novo a esperança aos homens, aos sobreviventes, prometeu que a água jamais haveria de destruir a Terra.

O que Deus se esqueceu foi que, através dessa mensagem de esperança, também ensinava aos homens que entre mortos e feridos, de uma forma ou de outra, estes conseguiriam sempre sobreviver. E os sobreviventes, autênticas fénix, aprenderam que eram capazes de superar até a mais forte das catástrofes renascendo das mais profundas cinzas.

E eis que finalmente percebemos o que somos, que somos o que somos e o que os outros também são. O problema de sermos demasiado verdadeiros é que a nossa ingenuidade leva-nos a gostar dos outros mais do que deveríamos, quando suportá-los mais do que seria desejável talvez já fosse demais.

Tudo na vida tem o seu avesso e no dia em que tomamos a decisão de ignorar unilateralmente as pessoas que não nos merecem, tornamo-nos seres implacáveis. Nesse momento essas pessoas estranham-nos, mas não nos entranham.

Como é frágil a memória dos seres humanos. Esta mudança de estado, esta sublimação da alma perante os outros, não deve ser vista ou interpretada como uma cruel sede de vingança. Deve ser encarada, isso sim, como um puro acto de justiça.

Todos nós não passamos de uma mistura de seres e saberes, que não só nos torna únicos, como especiais aos olhos dos demais. E a grande surpresa surge quando percebemos que são precisamente aqueles de quem nada se espera que acabam por fazer aquilo que ninguém está à espera.

"Não canses quem te quer bem" - repetia incessantemente, e quase em surdina, o personagem do meu livro ao seu companheiro de cela de sempre, numa real retrospectiva de vida após tantos anos desperdiçados.

Temos dias, semanas, meses em que nos encontramos no meio do nada. E é precisamente no meio deste nada que acabamos por nos reencontrar.