Caro Deus, (não... demasiado impessoal)‌‌
Estimado Deus, (não... demasiado submisso)‌‌....

Deus, (sim... falar-Lhe cara a cara não será sinal de desrespeito)

Não espero que me perdoes a audácia na forma como me estou a dirigir a Ti, apesar de ter consciência da surpresa que por certo Te causarei.

Decidi fazê-lo desta forma por seres Tu o primeiro a admitir que fizeste o Homem à Tua imagem, pelo que isso me dá algum grau de liberdade e confiança para me dirigir a Ti desta forma. Não considero que seja uma falta de respeito mas uma tentativa de Te fazer descer ao meu nível de mortal. Ao nível de quem não tem poderes para caminhar sobre as águas ou de multiplicar pães que saciem a fome a uma nação. Talvez assim me seja mais fácil falar-Te do que me vai na alma.

Hoje acaba, finalmente, um ano de luta. Sei que Tens consciência disso porque nos deste a nós, humanos, a inteligência suficiente para chegarmos até onde chegámos. E atrevo-me até a dizer que superámos as Tuas expectativas ou que talvez Te tenhamos apanhado num momento de distracção ou de elevada auto-confiança.

Quero que saibas que contei os dias para que o hoje chegasse. Se me tentaste pôr à prova é mais que óbvio que falhei em quase todos desafios. Mudei. Sou uma pessoa diferente e não necessariamente melhor. Se Tu, como Ser Supremo que és - ou dizes ser - só permites que nos aconteça aquilo que conseguimos suportar, descobri que sou mais forte do que pensava. Mas não tinha necessariamente de o descobrir assim.

Se até Job na sua infinita obediência e resignação foi por Ti castigado severamente, acredita que eu sofri à escala proporcional dos desafios que me lançasTe. E falhei quase todos. Foi demasiada informação para gerir por alguém que não tem a capacidade de ser omnipresente como Tu.

Explodi e sei que o fiz na pior altura. Mas fi-lo no preciso momento em que percebi que se não explodisse, implodia, com consequências muito mais graves para mim e para os que me são queridos.

É quando estamos com a cabeça entre as mãos que percebemos que dominar a alma não é a mesma coisa que dominar o corpo. E é nesse momento que se juntam as nós os que nunca mais nos abandonarão e nos ajudam no processo de reconstrução. É nesse momento que nos forçamos a dizer adeus a muitos outros que, apesar de irem fazer sempre parte de nós, temos de deixar para trás poder seguir caminho.

Sei que sabes que 2019 foi um ano de passado entre encontros e desencontros comigo mesma. Tropeção atrás de tropeção até perceber que há muito que já tinha ido ao chão. Foi um ano de lágrimas de amor, de lagrimas de ódio, muitas delas por Ti.‌‌

Sei que sabes que acredito fielmente que a força que alimenta os sonhos é o nosso desejo de imaginar um amanhã melhor. E amanhã vamos acordar em 2020.

Com isto não Te quero pedir que me excluas dos Teus desafios. Pelo contrário. Quero pedir-Te que deposites em mim a confiança de transportar uma semente chamada Sonho naquele que espero que seja o primeiro ano do resto da minha vida.

Afinal até Tu, Deus Todo Poderoso, descansasTe ao 7° dia.